O fiador involuntário
Bolsonaro, nota de rodapé diplomática

Para convencer Trump a não taxar o Brasil, o Itamaraty lembrou que crimes contra a democracia foram tipificados por quem hoje responde por eles.
Por Ailton Silva Jornalista 19/08/2025 - 10h01min - 1 min de leitura
Para convencer Trump a não taxar o Brasil, o Itamaraty lembrou que crimes contra a democracia foram tipificados por quem hoje responde por eles.
Em diplomacia, não há coincidências — mas às vezes há ironias. Para tentar barrar uma tarifa de 50% nos EUA, o governo Lula recorreu a Jair Bolsonaro como testemunha de defesa. O ex-presidente apareceu discretamente em uma nota de rodapé na carta enviada a Donald Trump, lembrado como o responsável por sancionar a lei que tipificou crimes contra a democracia. O detalhe é que o mesmo dispositivo que agora serve de argumento diplomático é justamente o que hoje sustenta processos contra ele no Supremo Tribunal Federal.
A carta, assinada pelo chanceler Mauro Vieira, é uma ginástica textual que tenta convencer Washington de que o Brasil não é uma ameaça nem para a democracia digital, nem para o mercado americano. Para isso, detalha os crimes definidos pela lei de Bolsonaro: abolir o Estado de Direito à força, atacar urnas eletrônicas, restringir direitos políticos e usar violência motivada por gênero, raça ou religião. A lista poderia ter sido escrita como roteiro do dia 8 de janeiro — só que sem vídeos no TikTok.
Entre um parágrafo e outro, o Itamaraty também se esforçou para acalmar as big techs, preocupadas com decisões do Supremo sobre o Marco Civil da Internet. Explicou, didaticamente, que o STF não pretende virar “síndico de conteúdo” de redes sociais. Não haverá responsabilização automática das plataformas. Só haverá cobrança em casos graves: terrorismo, pornografia infantil, tráfico humano, crimes contra mulheres e, claro, contra a democracia. Uma espécie de lista VIP do caos.
O objetivo final do documento é afastar o argumento de Trump — de que o Brasil estaria erguendo barreiras digitais para atrapalhar empresas americanas. No papel, Lula tenta soar previsível, democrático e aberto ao livre comércio. Na prática, precisou ressuscitar Bolsonaro em rodapé para provar que o Brasil respeita regras.
É um caso raro em que a diplomacia brasileira conseguiu unir Lula, Bolsonaro e Trump em uma mesma narrativa: um presidente em exercício, um ex em julgamento e um outro que nunca aceitou ter perdido. A carta, que deveria tratar de tarifas e algoritmos, acabou virando uma peça literária de humor involuntário.
No fim, Bolsonaro não falou, não escreveu, não foi consultado — mas virou fiador involuntário da legalidade brasileira. Em Brasília, chamam isso de pragmatismo. No rodapé, é quase sarcasmo.
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