Faça Bonito: Quando o silêncio precisa acabar
Ariranha ocupa ruas, escolas e palcos para enfrentar uma das formas mais invisíveis de violência: o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes.
Por Ailton Silva Jornalista 27/05/2026 - 19h05min - 1 min de leitura
Há violências que não deixam marcas visíveis. Não quebram vidros, não interrompem o trânsito, não fazem barulho. Acontecem em silêncio — e, por isso mesmo, persistem.
Foi contra esse silêncio que o governo de Ariranha — na figura do prefeito Dedê Trovó e da primeira-dama Marina, com atuação do CRAS e de outras pastas — decidiu agir.
Ao longo de maio de 2026, o município transformou a Campanha “Faça Bonito”, tradicionalmente lembrada no dia 18, em uma mobilização contínua. Não se tratou de um ato isolado, mas de uma sequência de ações espalhadas pela cidade, envolvendo escolas, serviços públicos, entidades e a própria população.
Antes mesmo do início oficial do mês, no dia 30 de abril, professores da rede municipal participaram de uma formação sobre escuta especializada. O tema, técnico à primeira vista, toca um ponto essencial: a capacidade de ouvir crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade sem revitimização. A condução ficou a cargo do assistente social Alison Paulo, que trouxe a discussão para o cotidiano das salas de aula.
Nos dias seguintes, a campanha ganhou ritmo. Nas redes sociais da Assistência Social, conteúdos educativos se repetiam com insistência — uma estratégia deliberada para manter o tema em evidência. No Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), rodas de conversa e atividades de sensibilização buscavam transformar informação em entendimento.
No dia 19 de maio, o debate subiu ao palco. O Teatro Municipal Professora Livia Pozzetti Lopes recebeu sete apresentações ao longo do dia. Alunos, professores, famílias e população ocuparam o espaço para assistir às intervenções conduzidas pelo ator e humorista Marcelo Pachioni. A escolha da linguagem não foi casual: falar de um tema duro exige caminhos acessíveis. O riso, ali, serviu como ponte.
Mas a campanha não permaneceu restrita aos espaços institucionais. No dia seguinte, ela entrou nas escolas com a oficina “Crescer com Proteção”, levando dinâmicas, orientações e diálogo direto com as crianças. A proposta era clara: a prevenção começa cedo — e precisa ultrapassar os muros escolares.
Em 21 de maio, a cidade virou cenário. Na Rodoviária Celeste Motta, um pedágio educativo reuniu exposição de trabalhos, distribuição de materiais e participação da comunidade. A Rádio Ondas Verdes ampliava o alcance da ação, enquanto equipes da saúde realizavam atendimentos básicos, como aferição de pressão arterial e testes de diabetes. Diferentes setores, uma mesma pauta.
No mesmo dia, uma atividade simples carregava um significado profundo: a criação de pequenos vasos de flores. Em campanhas como essa, os símbolos não são decorativos — são linguagem. Falam de cuidado, de proteção, de vínculos que precisam ser cultivados.
A mobilização seguiu com apoio institucional e presença de lideranças locais. Equipes técnicas, Conselho Tutelar, Polícia Militar e representantes do poder público compuseram uma rede que, na prática, buscou mostrar que a proteção não é responsabilidade isolada, mas coletiva.
O encerramento, no dia 24 de maio, reuniu famílias no 1º Passeio Ciclístico Faça Bonito. O trajeto percorreu ruas da cidade com a participação de autoridades, crianças, pais e responsáveis dividindo o mesmo percurso. Durante o evento, houve distribuição de algodão doce, pipoca, brinquedos e bonés personalizados, além de mensagens de conscientização.
Ao final, o sorteio de uma bicicleta foi vencido por Pedro Henrique Cardozo, filho de Helen e Rique, encerrando a programação de forma leve, sem perder a seriedade do tema abordado.
Mesmo depois dos eventos principais, a campanha seguiu presente. Cartazes no comércio, faixas em prédios públicos, rodas de conversa com famílias e usuários do CRAS mantiveram o assunto em circulação. A estratégia não foi apenas informar, mas aproximar — reduzir a distância entre o problema e quem pode ajudar a enfrentá-lo.
A Campanha “Faça Bonito” não elimina, por si só, a violência que denuncia. Mas rompe algo fundamental: o silêncio que permite que ela continue.
E, em cidades pequenas, onde todos se conhecem, quebrar o silêncio talvez seja o primeiro — e mais difícil — passo.
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